Quando o passado bate à porta...
Nem sempre, na vida, temos todas as certezas.
Nem sempre as coisas são preto no branco, como tantas vezes gostamos de acreditar. Há dias cinzentos, tal como há dias cheios de cor. E talvez uma das coisas que precisamos de aprender seja precisamente a normalizar os dias cinzentos da vida. Eles também fazem parte do caminho.
Há dias em que a dúvida aparece sem avisar. A incerteza instala-se e, por breves momentos, a saudade chega e assusta.
E pergunto-me: será normal?
Se tenho a certeza do caminho que escolhi, porque é que, de vez em quando, o passado bate à porta como se tivesse sido tudo maravilhoso?
A verdade é que não foi.
Houve momentos aos quais não quero voltar. Momentos que deixaram marcas tão profundas que, quando penso neles, ainda consigo sentir o meu corpo e a minha mente entrarem em alerta. Há memórias que não precisam de palavras para nos lembrarem aquilo que vivemos.
Mas também existiram momentos bons. Muito bons, até.
E talvez seja por isso que, de vez em quando, o passado me visita.
Talvez não seja vontade de voltar. Talvez seja apenas memória.
Porque podemos sentir saudade de alguns momentos sem sentir saudade da vida que tínhamos. Podemos recordar alguém, um lugar, uma fase ou uma sensação e, ainda assim, saber profundamente que já não pertencemos ali.
A saudade não é necessariamente um sinal para regressar.

Às vezes, é apenas uma parte nossa a reconhecer que aquilo também fez parte da nossa história.
E talvez as certezas não sejam uma linha reta.
Talvez possamos ter escolhido o nosso caminho com consciência e, ainda assim, ter dias em que questionamos.
Podemos estar em paz com as nossas escolhas e, mesmo assim, sentir falta de alguma coisa que ficou para trás.
Isso não apaga o caminho que percorremos.
Não significa que estamos perdidos.
Significa apenas que somos humanos.
Aprendi que não preciso de transformar todas as dúvidas em respostas imediatas. Nem todos os dias precisam de certezas. Há dias em que basta respirar, observar o que sentimos e permitir que passe.
Porque o passado pode bater à porta.
Mas isso não significa que temos de o deixar entrar.
Podemos olhar para ele, reconhecer o que foi, agradecer o que nos ensinou e continuar.
E talvez seja essa uma das formas mais bonitas de cura: conseguir lembrar sem querer voltar, sentir sem se perder e olhar para trás sem deixar de caminhar para a frente.
Nem tudo precisa de ser preto no branco.
Há dias cinzentos.
E está tudo bem.
Eles também fazem parte das cores da nossa vida.
Sandra ✨Dhriti Dasi



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